terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Uma judiaria entre tantas nesta nossa Sefarad



Castelo de Vide


Vista de Castelo de Vide


Numa encosta virada para a nascente e adossada ao velho casco medieval desenvolve-se a Judiaria de Castelo de Vide. Num acentuado declive serpenteiam as estreitas calçadas que se desenvolvem desde a Porta da Vila, no castelo, até à Fonte da Vila, em tudo semelhantes às que formam o restante núcleo medieval de Castelo de Vide. Torna-se interessante verificar que a comunidade judaica de Castelo de Vide evoluiu entre dois espaços fundamentais - o velho Largo do Mercado e a vetusta Fonte da Vila. O Judeu, pela sua vivência em diáspora, ligou-se fundamentalmente, às actividades mercantis, justificando-se, mutuamente mercado e judiaria, no mesmo espaço - encosta nascente do Castelo.



Largo do Mercado


A amplitude do bairro judeu de Castelo de Vide, como se vê nesta imagem lateral, pode compreender-se devido à proximidade com a fronteira castelhana. Assim sendo, o édito de 1492, promulgado polos reis católicos provocou uma deslocação maciça de famílias judias que procuravam abrigo em Portugal. Datará dessa altura o desenvolvimento comercial e manufatureiro que veio a caracterizar, posteriormente, Castelo de Vide. Depois da expulsão dos Judeus de Portugal de 1496, permaneceram em Castelo de Vide muitas famílias de Judeus convertidos ao cristianismo.

Ainda que de difícil delimitação urbana, a Judiaria de Castelo de Vide desenvolveu-se, fundamentalmente, pelas ruas da Fonte, do Mercado, do Arçário, do Mestre Jorge, da Judiaria, da Ruinha da Judiaria, da actual Rua dos Serralheiros e da Rua Nova. A amplitude deste espaço pode compreender-se devido à proximidade de Castelo de Vide com a fronteira castelhana.



Arruamentos da Judiaria


O Édito de 1492, promulgado pelos Reis Católicos, Fernando e Isabel, provocou uma deslocação maciça de famílias judias que procuravam, do lado de cá da fronteira, a paz que as profecias lhes negavam em terra estranha. Datará dessa altura o desenvolvimento comercial e manufactureiro que veio a caracterizar, posteriormente, Castelo de Vide. Não só nas artes e ofícios se notabilizou a comunidade judaica de Castelo de Vide, tendo brilhado também os seus filhos na botânica e medicina, como nos provam os nomes de Garcia de Orta e Mestre Jorge o Físico.


A despeito da renovação que, por via da sua contínua ocupação, foi sofrendo, a judiaria de Castelo de Vide apresenta ainda alguns elementos característicos: as portas ogivais de habitação e de oficina ou comércio (algumas decoradas com símbolos profissionais), as velhas calçadas e o edifício que se julga ser a antiga Sinagoga. O edifício identificado como Sinagoga Medieval localiza-se na confluência da Rua da Judiaria com a Rua da Fonte. Compõe-se de dois pisos, abrindo-se numa das divisões do piso superior o que se julga ser o Tabernáculo.



Sinagoga de Castelo de Vide


Neste compartimento reuniam-se os homens da comunidade, enquanto na divisão à sua direita, daquela separada, originalmente por um pequeno postigo, congregavam-se os membros do sexo feminino, enquanto decorriam as sessões de estudo dos Textos Sagrados. As Sinagogas, enquanto espaço polifacetado, funcionavam, paralelamente, como Escola. Também na Sinagoga de Castelo de Vide existe um espaço, que diz a tradição popular, ter sido dedicado ao ensino dos mais jovens. A Escola situava-se à esquerda da sala do Tabernáculo.

Os trabalhos de restauro, consolidação e valorização do edifício da Sinagoga obrigaram à realização de várias sondagens arqueológicas no piso inferior deste espaço. Nesses trabalhos, além da identificação de vários testemunhos das diferentes ocupações ao longo dos tempos, foi possível manter três silos escavados no granito de base, apresentando um deles vestígios de ter sido forrado com placas de cortiça.


Os diferentes níveis estratigráficos observados indicam a existência de, pelo menos, três fases distintas de utilização do piso inferior. A mais antiga, contemporânea da abertura dos silos, remonta aos finais do século XIV. Os dois silos do primeiro compartimento estiveram em uso até meados do século XVI, enquanto os materiais exumados no silo do segundo compartimento apontam para um abandono algo mais tardio. Quer pelos materiais arqueológicos recolhidos no interior dos silos, quer pelo espólio identificado na sondagem efectuada no quintal da Sinagoga, outrora espaço coberto, pode-se afirmar que o século XVI foi época de profundas alterações deste edifício, coincidindo com o fim da liberdade de culto dos judeus em Portugal. Posteriores utilizações foram dadas a este imóvel. O espaço interno e externo foi sendo alterado e adaptado ao longo dos séculos. O Tabernáculo só foi redescoberto nos anos setenta do presente século, quando se procedia ao arranjo das paredes do edifício.


De quando a data da sua fundação, não se sabe ao certo, no entanto, já no séc. XIV existia uma judiaria em Castelo de Vide, que era constituída por um conjunto de casas construídas junto à porta principal do castelo. A Sinagoga está situada na Rua da Judiaria / Rua da Fonte, o edifício orienta-se no sentido Este / Oeste. 

Todo o conjunto é constituído por um só volume, com dois pisos. Vulgarmente chamada "Sinagoga", mas com o nome apropriado de "BEIT-HA - MIDRASCH-SEFARDIN".


No compartimento destinado ao culto, no seu interior, tem instalado o tabernáculo, com as respectivas cavidades destinadas às lamparinas dos "Santos Óleos" e ao lado direito desta peça, uma apoiaria as sagradas escrituras, em que na base estão implantadas sete bolas indicadoras dos seis dias em que Deus criou o mundo e do último dia, o sétimo, descanso da obra. 



Aron Kodesh

No séc. XVIII sofreu obras de adaptação para residência. Foi reconstruída respeitando a traça primitiva em 1972. Uma porta de acesso ao primeiro piso apresenta uma pequena concavidade que se chama a marca da MEZUZAH, palavra hebraica que significa "ombreira da porta".

Esta concavidade destinava-se a guardar um estojo que continha um pequeno pergaminho em que se escreviam algumas das palavras do SHEMA, oração fundamental do culto judaico. Todos a as portas são em ogiva que arranca de impostas com arestas vivas, toros e caneluras. Leis decretadas por alguns monarcas lusitanos no sentido de se criarem guetos próprios, onde só vivessem judeus, levaram ao aparecimento de bairros, igualmente conhecidos pelo nome de "Judiarias".




Foi no séc. XIV, que D. Pedro I aforava a Mestre Lourenço seu físico, provavelmente judeu, uma terra em Castelo de Vide, sendo vários os documentos datados do século XV que testemunham a existência da comunidade judaica da vila. Em Castelo de Vide a Judiaria desenvolveu-se na encosta da vila virada a nascente. Ainda que estabelecido numa das zonas mais acidentadas, o bairro era atravessado por um eixo fundamental de comunicação do castelo com o exterior e vice-versa. Da presença judaica em Castelo de Vide restam alguns testemunhos materiais em que assume especial relevância o edifício onde se julga ter funcionado a Sinagoga Medieval. Outros edifícios da Rua da Judiaria, da Rua da Fonte ou da Ruinha da Judiaria mostram ainda o que resta da tradição milenar judaica de marcar a sua fé nas ombreiras das portas.






O estabelecimento da Inquisição e a publicação do Édito de Expulsão dos judeus dos reinos de Espanha por Fernando e Isabel, os reis católicos, contribuíram para o crescimento da judiaria de Castelo de Vide que mantém na toponímia das suas ruas o testemunho da presença judaica, mas também o da perseguição do Santo Ofício aos cristãos-novos.



Memorial a Judeus mortos pola Inquisição 
no Museu da Sinagoga




Fonte do Texto:


Fontes das Fotos:

Google Maps

2 comentários:

  1. Já visitei a Judiaria em Castelo de vide e, claro, a sinagoga/museu.
    Este texto, ou este contexto geográfico, sociológico e histórico, revela-se um óptimo contributo para reforçar o que se viu. É ainda aconselhável aos que ainda não tenham visitado e o poderão fazer de forma mais esclarecida. Obrigada, Ziva David.

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  2. Muito obrigada eu pelo seu comentário Conceição Coelho.

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