quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Itzhak Perlman



Schindler's List Theme by Itzhak Perlman in Chile 




Itzhak Perlman (em hebraico: יצחק פרלמן; Iafo, 31 de agosto de 1945) é um maestro e violinista virtuoso israelita e foi considerado um dos maiores violinistas do século XX e XI. É o solista do filme A lista de Schindler, trabalhando em conjunto com o compositor John Williams. É famoso pela sua interpretação do concerto de Mendelssohn quando tinha apenas 13 anos e pela sua interpretação mágica do concerto de violino de Beethoven com a Orquestra Filarmônica de Berlim. Perlman contraiu poliomielite aos quatro anos, razão pela qual utiliza muletas para andar e toca violino somente sentado.



 Itzhak Perlman


Fonte:

Judeu sefárdico, rabino, astrónomo, matemático e historiador


Abraham bar Samuel Abraham Zacut


Judeu sefárdico, rabino, astrónomo, matemático e historiador que serviu na corte do Rei João II de Portugal. Foi em Leiria que Samuel e Abraão d'Ortas publicaram as suas famosas tabelas numéricas, o Almanach perpetuum.





O Almanach perpetuum foi um dos quatro primeiros livros impressos em Portugal e o primeiro no que respeita às Matemáticas. É um livro raro, e por isso Joaquim Bensaúde fêz reproduzir em 1915 pela fotogravura um exemplar que existe na Biblioteca de Augsburg, na Alemanha, e a tradução em castelhano dos Cânones (Regras para o seu uso), que existe na Biblioteca Pública de Évora.


Biografia
Zacuto nasceu em Salamanca, em cerca de 1450. Estudou astrologia e astronomia e tornou-se professor destas disciplinas na Universidade de Salamanca, e mais tarde nas de Saragoça e Cartagena. Também se formou em lei judaica e tornou-se rabino.
Quando da expulsão dos judeus de Espanha em 1492, Zacuto refugiou-se em Lisboa, Portugal. Foi chamado à corte portuguesa e nomeado Astrónomo e Historiador Real por João II, cargo que exerceu até ao reinado de Manuel I.
Foi consultado por este monarca acerca da possibilidade de uma viagem por mar até à Índia, que apoiou e encorajou.

As tabelas de 1496
astrolabio


O astrolábio planisférico era um instrumento muito sofisticado, um autêntico computador analógico que exigia um grande rigor e cálculos complexos para a sua construção. Julga-se que nunca foram construídos tais instrumentos no nosso país, mas o astrolábio simplificado que os cosmógrafos e navegadores das Descobertas terão inventado, tornou-se num instrumento de grande utilidade para a navegação.


Abraão Zacuto foi o autor de um novo e melhorado astrolábio, que ensinou os navegantes portugueses a utilizar, e também de melhoradas tábuas astronómicas que ajudaram a orientação das caravelas portuguesas no alto-mar, através de cálculos a partir de observações com o astrolábio.
As suas contribuições salvaram sem dúvida a vida de muitos marinheiros portugueses e permitiriam as descobertas do Brasil e da Índia. Ainda em Espanha, escreveu e publicou em 1491 um tratado de astronomia em hebreu, com o título Ha- Hibbur ha-Gadol.




1473-1478
O célebre Almanach Perpetuum foi escrito entre os anos de 1473 e 1478, data que é referida pelo seu autor na sua introdução. O livro foi reeditado e impresso tipograficamente em Leiria em 1496, tendo sido traduzido do hebreu para o latim e do latim para o castelhano por Mestre José Vizinho, médico da corte de D. João II e astrónomo, que foi discípulo do autor.
Em Leiria trabalhava Samuel D'Ortas e os seus três filhos. Tinham imprimido nessa cidade dois livros em hebraico, Provérbios com comentários, em 1492, e os Primeiros Profetas, com comentário, em 1495.
Foi na tipografia de Leiria de Abraão d'Ortas que Zacuto publicou em 1496 a obra Biur Luchot (Explicações das Tábuas), Tabula tabulay celestius motuuz astronomi zacuti necnon stelay firay longitudinez ac latitudinez. , que foi traduzida do hebraico para o latim pelo seu discípulo José Vizinho.



ap
Clique na imagem para ampliar.
Primeira página das tabelas do Almanach Perpetuum de Abraão Zacuto, exemplar existente na Biblioteca Nacional. As tabelas prolongavam-se por mais 300 páginas. Foi impresso em Leiria em 1496 pelo judeu Abraão d'Ortas.
Neste livro publicou as tábuas astronómicas para os anos de 1497 a 1500, que foram utilizadas, juntamente com o seu astrolábio melhorado de metal, por Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral nas suas viagens.
O método para a determinação das latitudes foi aplicado na náutica lusitana pela primeira vez por José Vizinho, cosmógrafo e médico de João II, em uma viagem que, para o experimentar, fêz à Guiné em 1485.
Entre as aplicações que depois se fizeram dele, ficaram especialmente assinaladas a que fêz Vasco da Gama na ilha de Santa Helena, quando aí abordou na sua primeira viagem a Índia, e a que fêz Mestre João, médico-astrólogo da armada de Pedro Álvares Cabral, em 1500, na ocasião de esta armada aportar a terras de Santa Cruz.
Escreve Fernado Reis:
"Com base nas primeiras quatro tábuas solares do Almanach era possível determinar com rigor o lugar do sol na eclíptica. Com este valor, recorrendo a uma quinta tábua, era possível obter o valor da declinação do Sol, parâmetro astronómico necessário ao cálculo da latitude do lugar de observação quando utilizada a medida da altura meridiana desse astro.
Estas tábuas eram utilizáveis directamente para os anos 1473 a 1476. Para os anos posteriores, era necessário fazer alguns cálculos, por sua vez facilitados por uma outra que Zacuto incluiu na obra. O grau de precisão oferecido por estas tábuas era tal que elas foram utilizadas como base de diversas outras tábuas destinadas aos marinheiros, onde se indicavam os resultados dos cálculos requeridos pelas tábuas de Zacuto.

Abraham ben Samuel Zacuto (ca. 1450-ca. 1515).
Os regulamentos das antigas navegações portuguesas foram reunidos num livro intitulado Regimento do astrolábio, do qual se conhecem dois exemplares, pertencentes a duas edições diferentes: um, mais antigo, encontrado por Joaquim Bensaúde na Biblioteca Nacional de Munique, e outro, mais completo e mais perfeito, encontrado por Luciano Cordeiro na Biblioteca Pública de Évora.
"De nada lhe valeram os serviços que fizera às nossas navegações com as suas tábuas e com o seu ensino. Expulso primeiramente da Espanha, onde nascera, e depois de Portugal, a nova pátria que adoptara, lá foi seguindo na sua peregrinação até Tunis e depois até à Síria, onde foi procurar nos islamitas de Damasco a tolerância religiosa que não encontrara entre os cristãos da Ibéria." (Francisco Gomes Teixeira).

A expulsão e o exôdo 


Zacuto viveu em Portugal apenas 6 anos, porque em 1496 Manuel I seguiu o exemplo dos Reis Católicos de Espanha e decretou a expulsão do país de todos os judeus que recusassem a conversão ao catolicismo através dos baptismo. Zacuto foi um dos poucos a conseguir fugir de Portugal após as conversões à força e as proibições de emigração que Manuel I impôs aos judeus portugueses.

Zacuto refugiou-se em Tunes, no Norte de África, tendo depois passado para a Turquia, vindo a morrer na cidade de Damasco (Império Otomano) em ano posterior a 1522.
Em 1504, em Tunes, Zacuto escreveu uma História dos Judeus, Sefer ha-Yuasin, desde a Criação do Mundo até 1500, e ainda vários tratados astronómicos. Esta História foi muito respeitada e republicada em Cracóvia em 1581, em Amsterdão em 1717, e em Königsberg em 1857. Em Londres foi publicada uma edição também 1857.

Temas relacionados
Além do Almanach de Zacuto outras obras tiveram uso na navegação marinha da época — por exemplo o Repertório dos Tempos, publicado por Valentim Fernandes.

Fonte:

TOMAR



Sinagoga de Tomar



Em Tomar, viviam muitos Judeus que habitavam a Judiaria (depois designada Rua Nova - entre as Ruas Direita dos Açougues e dos Moinhos). A Judiaria era fechada ao cair da noite com correntes.
Estes Judeus, como na própria Roma, tinham uma Sinagoga. Localizada na tal Rua Nova (Dr. Joaquim Jacinto) foi mandada erigir pelo Infante D. Henrique em meados do Séc. XV. Foi ele que deu guarida aos Judeus e criou a Judiaria.
Os Judeus, contribuíram muito para o engrandecimento económico de Tomar. Eram muitos e abastados. 





Em 1923, o Dr. Samuel Schwarz compra a Sinagoga a Joaquim Cardoso Tavares, restaura-a, e em 1939 doa o imóvel ao Estado, na condição de nele ser instalado o Museu Luso-Hebraico.


Em 1942/43 são feitas obras de adaptação para o Museu e em 1949 a Sinagoga é ampliada. Em 1952 é construída a habitação para o guarda.

Este monumento, único em Portugal, é Monumento Nacional, símbolo da coexistência religiosa judaica em Tomar.




A Sinagoga de Tomar encontra-se situada na antiga judiaria, em pleno centro histórico da cidade. Este antigo local de culto, encerrado no final do século XV, alberga actualmente o Museu Luso-Hebraico Abraão Zacuto. O edifício é monumento nacional desde 1921.




A origem da comunidade judaica de Tomar remonta provavelmente ao início do século XIV, quando aqui se instalou gente de nação (como então era conhecida esta minoria) ao serviço da Ordem do Templo e, mais tarde, da sua sucessora, a Ordem de Cristo. O rápido crescimento demográfico, ao longo do século XV, suscitou a criação de uma judiaria, com o encerramento de portas entre o pôr e o nascer do sol. Estas portas situar-se-iam nas extremidades ocidental e oriental desta rua, que passou a ser designada de Rua da Judiaria, mais especificamente nos cruzamentos com as Ruas do Moinho e Direita, respectivamente. A situação da Judiaria, próxima do centro económico e social da então vila, é bem demonstrativa da importância que a comunidade assumiu na sociedade nabantina. De facto, calcula-se que a população judaica de Tomar andasse, em meados do século XV, em cerca de 150 a 200 indivíduos, tendo chegado a atingir uma significativa proporção de 30 a 40% do total de habitantes da vila, na sequência da chegada dos judeus espanhóis, expulsos em 1492.

É neste contexto que se dá a fundação da sinagoga, em meados do século XV, motivada pelo crescente número de fiéis. A construção deu-se por ordem do Infante D. Henrique, que ao que tudo indica protegia a comunidade hebraica da vila, facto a que não é alheio o cargo que exercia, de mestre da Ordem de Cristo. No entanto, a existência deste templo seria efémera, pois logo em 1496, com a conversão forçada dos judeus ao cristianismo decretada por D. Manuel I, a Judiaria da vila, à semelhança de todas as outras do reino, é abolida, sendo também encerrada a sua sinagoga. O nome da rua é então mudado para Rua Nova, transitando muitos dos cristãos-novos (judeus convertidos ao cristianismo) para outros arruamentos, enquanto cristãos-velhos se instalavam nas casas deixadas devolutas.
O espaço da sinagoga passou então, a partir de 1516, a ser utilizado como cadeia pública. Entre os finais do século XVI e os inícios do XVII, depois das necessárias obras, o edifício passou a local de culto cristão, como Ermida de São Bartolomeu. Após a sua profanação, no século XIX, o antigo templo foi utilizado como palheiro, servindo em 1920, aquando da visita de um grupo de arqueólogos portugueses, de adega e de armazém de mercearia. No ano seguinte, o edifício foi classificado como Monumento Nacional, tendo sido adquirido em 1923 pelo Dr. Samuel Schwarz. Este judeu polaco, investigador da cultura hebraica, suportou obras de limpeza e desaterro, doando o edifício ao Estado em 1939, sob a condição de aqui ser instalado um museu luso-hebraico.

A Sinagoga de Tomar é o único templo judaico proto-renascença existente actualmente no país. A sala destinada ao culto desenvolve-se num espaço de planta quadrada, com piso inferior ao do exterior, dividido em três naves de três tramos, apresentando uma tipologia semelhante à de outras sinagogas sefarditas quatrocentistas. O tecto, em abóbada de tijolo de arestas vivas, é suportado por quatro elegantes colunas, com capitéis de lavores geométricos e vegetalistas, e por mísulas embebidas nas paredes. A disposição destes elementos encerra um significado simbólico: as doze mísulas simbolizam as doze tribos de Israel, enquanto que as quatro colunas representam as quatro matriarcas – Sara, Rebeca, Lea e Raquel. Estas duas últimas matriarcas são as filhas de Labão, facto que explica a razão por que os capitéis são iguais em duas colunas e diferentes nas restantes. Para efeitos acústicos, encontram-se colocadas, embutidas na parede dos cantos, oito bilhas de barro viradas ao contrário, que comunicam com a sala através de orifícios. A porta virada para nascente, em arco quebrado, lanceolado do lado de fora, era a porta principal do templo. A entrada faz-se hoje por uma modesta porta de vão rectangular, voltada para norte. Este espaço apresenta algumas semelhanças com a cripta de D. Afonso, Conde de Ourém, na Igreja Matriz aquela cidade, nomeadamente no que respeita ao sistema acústico e ao tratamento do espaço interno. Depois de algumas escavações feitas no local, foi encontrada uma sala de planta rectangular, adossada ao edifício principal, destinada ao mikvah, o banho ritual de purificação das mulheres.
O acervo do museu inclui livros e objectos da tradição e culto judaicos, sendo ainda exibidas algumas lápides provenientes de vários locais do país e que atestam a importância da cultura hebraica em Portugal. Desta colecção de lápides, há a destacar uma estela funerária proveniente de Faro, alusiva ao falecimento em 1315 do Rabi Ioseph, judeu nabantino, e a lápide de 1308, que assinala a fundação da segunda sinagoga de Lisboa.


Fontes:
http://tomar.com.sapo.pt/sinagoga.html

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Mensagem aos meus leitores:




Caríssimos leitores, o conteúdo deste blog é essencialmente dedicado a assuntos relacionados com o judaísmo, porém, poderão ler, ver e ouvir outras situações que podem ou não estar ligadas com o tema.



Como por exemplo esta música que vos dedico e que serve apenas para desejar a todos vós uma noite muito feliz. ZD


LAILA TOV!

A psicanálise dos contos de fadas



BRUNO BETTELHEIM

(1903-1990)


Um judeu americano de origem austríaca que foi psicanalista. A sua obra sobre as psicoses infantis é uma das mais importantes da psiquiatria contemporânea. Com a ocupação da Áustria pela Alemanha Nazi, foi internado em campos de concentração, entre 1938-39. Após a sua libertação emigrou para os EUA, onde dirigiu, entre 1944 e 1973, a Escola Ortogénica da Universidade de Chicago, uma comunidade para crianças com graves perturbações mentais. Da sua bibliografia, destaca-se o popular título:





PSICANÁLISE DOS CONTOS DE FADAS


(The Uses of Enchantment 1976).


   A IMPORTÂNCIA DOS CONTOS DE FADAS
SEGUNDO BRUNO BETTELHEIM

Se esperarmos viver não somente de momento a momento, mas na plena consciência da existência, então a nossa maior necessidade e a nossa mais difícil realização é encontrarmos um sentido para as nossas vidas. (…) De forma a não estarmos à mercê dos caprichos da vida, é preciso desenvolvermos os nossos recursos interiores, para que as nossas emoções, imaginação e intelecto se apoiem e se enriqueçam mutuamente. Os nossos sentimentos positivos dão-nos a força para desenvolver a nossa racionalidade; só a esperança no futuro nos pode sustentar nas adversidades que inevitavelmente encontraremos. (…)

Todos temos tendência para avaliar os futuros méritos de uma atividade com base naquilo que ela nos oferece agora. E isto é especialmente verdade para a criança, que, muito mais do que o adulto, vive no presente e, embora sinta angústia em relação ao futuro, tem a noção do que ele exigirá ou virá a ser. A ideia de que aprender a ler nos pode habilitar a enriquecer posteriormente a nossa vida futura é sentida como uma promessa vazia quando as histórias que as crianças estão a ouvir ou a ler são estúpidas. (…)

Para que uma história possa prender verdadeiramente a atenção de uma criança, é preciso que ela a distraia e desperte a sua curiosidade. Mas, para enriquecer a sua vida, ela tem de estimular a sua imaginação; tem de ajudá-la a desenvolver o seu intelecto e a esclarecer as suas emoções; tem de estar sintonizada com as suas angústias e as suas aspirações; tem de reconhecer plenamente as suas dificuldades e, ao mesmo tempo, sugerir soluções para os problemas que as perturbam. (…)

     Neste e noutros aspetos, em toda a «literatura infantil» - com raras exceções – nada é mais enriquecedor e satisfatório, quer para a criança quer para o adulto, do que o popular conto de fadas. (…)

Nos contos de fadas, como na vida, o castigo (ou o medo dele) é somente uma dissuasão limitada para o crime. A convicção de que o crime não compensa é uma dissuasão muito mais eficaz, e é por isso que nos contos de fadas os maus perdem sempre. Não é o facto de a virtude ganhar no fim que promove a moralidade, mas sim o facto de que o herói é extremamente simpático para a criança, a qual se identifica com ele em todas as suas lutas. Por causa desta identificação, a criança imagina que sofre com o herói todas as suas provações e tribulações, triunfando com ele quando a virtude triunfa também. A criança faz tais identificações por si própria, e as lutas interiores e exteriores do herói gravam nela a moralidade. (…)


Com os agradecimentos habituais à minha amiga

Sónia Craveiro

 Beijinhos

Fonte:

 "in Psicanálise dos Contos de Fadas, Livraria Bertrand."



Felix Mendelssohn


Um compositor judeu


 
Felix Mendelssohn Bartholdy
 
 

 Em 2009 comemoram-se 200 anos de nascimento de Mendelssohn. Sua trajetória é exemplar para a integração dos judeus na Alemanha do século XIX.

Felix Mendelssohn-Bartholdy foi o primeiro compositor judeu da Alemanha a ser cumutado de honrarias, ocupar cargos significativos, assim como alcançar destaque social e ser celebrado em toda a Europa. O nazismo criaria um corte em sua recepção, até hoje não cicatrizado.


Uma exposição em Eisenach abordou o papel de Felix Mendelssohn como redescobridor da música de Johann Sebastian Bach. Enquanto o compositor judeu foi excluído pelos nazistas, Bach foi instrumentalizado como músico nacional.


A ideologia nazista baniu a música do judeu Mendelssohn e apagou seus traços da cidade onde viveu os últimos anos. Com concertos e monumentos, um regente de fama mundial se bate há décadas para corrigir esta distorção.

O compositor passou a maior parte da vida na então capital da Prússia. Porém ao fim trocou-a por Leipzig. Ainda assim, muitas marcas mendelssohnianas permanecem em Berlim, na forma de música, pedra ou instituições.
lssohn Bartholdy

 
Mendelssohn - Song without Words, Op. 30 - 6 - Gondolier's Song 


 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Espanha judaica



De volta a Sefarad


Meio milénio depois da expulsão, descobertas em terras espanholas remontam o longo passado dos judeus na Península Ibérica. Que eles tratavam por Sefarad.




No norte da África, ainda há judeus guardando a antiquíssima chave da casa da cidade espanhola onde seus antepassados viveram. Trata-se de uma façanha de preservação, passada sucessivamente de pai para filho. Afinal, vale lembrar que os judeus foram expulsos da Espanha em 1492 - o mesmo ano da descoberta da América. Lá se vai, portanto, mais de meio milénio. Dentre aquele que, ao cabo de muitas gerações, conseguiu manter a chave no baú, a maioria o fez ciente de estar conservando uma relíquia de valor histórico, mas, sobretudo, familiar. Uma preciosidade sentimental, enfim. Mas narra-se, também, que alguns desses judeus continuam confiando na serventia prática da tal chave. Em outras palavras: aquele enferrujado metal ainda abriria a porta da remota residência da família na Espanha.  

O mais incrível: algumas daquelas casas dos guetos judaicos, de fato, foram mantidas tal e qual há mais de 500 anos. Desde aquele período, nenhum outro ser humano havia entrado nesses lares, erguidos ainda nos idos medievais.

Assim aconteceu em Girona, na Catalunha, uma das 17 comunidades autónomas da Espanha actual. Estacionado no tempo, como se meio milénio de História fosse mero hiato, lá está - intacto! - um trecho inteiro do antigo bairro judeu da cidade. Essa área esquecida pela especulação pode ser vista através de uma das janelas do Museu D'Història dels Jueus - um dos dois museus do país que narram a saga judaica na Espanha; o outro fica em Toledo.

Sonhadores, esses judeus imaginam que malgrado o peso de cinco séculos, o domicílio estaria de pé, assim como foi abandonado, às pressas e à revelia, no raiar da Idade Moderna.


Há apenas três anos, escavações em Barcelona revelaram ruínas de uma das primeiras sinagogas da Europa.


Quem encosta o nariz no vidro da tal janela observa, assombrado, as casas estreitas, de dois ou três pavimentos, desafiando o desdobrar dos séculos. Essas residências permaneceram inalteradas na Cidade Velha, em meio às vielas e labirintos do call - ou bairro judeu, na língua catalã. A razão da invulgar preservação?  






Os sefarditas eram, na Idade Média, um povo essencialmente urbano. Foram proibidos de posses agrárias.



Ao intento da Rede de Juderías, cabe registar, que vai além de reconstituir o passado dos sefarditas - ou seja, dos judeus de raízes ibéricas, ao passo que os judeus radicados na fracção oriental da Europa são chamados de asquenazitas. Outro dos sólidos objectivos da associação é estabelecer um seguro roteiro histórico e religioso. Dessa maneira, procura-se abrir uma perspectiva prática para que novas gerações de ascendência sefardita viajem para a Espanha e conheçam in loco as origens de uma cultura que, a despeito de seguir com fidelidade os preceitos e dogmas comuns aos hebreus, firmou suas especificidades.


MARCAS DO PASSADO



O judeu mestre-de-obras Bertrand de la Borda incluiu esta estrela-de-david no claustro da igreja católica de Seu Vella, em Lérida.

A começar pela língua, enquanto os asquenazitas (Asquenaz quer dizer Alemanha, em hebraico) desenvolviam o ídiche, os judeus radicados na Península Ibérica se comunicavam por intermédio do ladino, idioma também conhecido por judezmo, espanyol ou didjio. Grosso modo, era uma adaptação do espanhol antigo, enxertado por uma amálgama de palavras hebraicas, árabes, turcas e portuguesas. Detalhe: uma comunidade isolacionista de Salónica, cidade na Grécia continental, ainda conversa no dia-a-dia nessa língua medieval, constituindo um caso raríssimo de conservação semântica. Por maiores os esforços da Red de Juderías, urge uma ressalva. Embora descobertas como o intacto call de Girona tenham gerado justificado arrebatamento, a própria entidade leva em conta um intransponível limite: o maior quinhão do património sefardita no país não sobreviveu aos nossos dias.




  EM TOLEDO, HERANÇA NOTÁVEL


Impedidos, por uns e por outros, de se candidatar a cargos militares ou, mesmo, do direito à posse agrária, os sefarditas tornaram-se um povo de essência urbana, dedicado a ofícios tais como tecelagem, alfaiataria, tinturaria, curtume e ourivesaria. Eles foram, no frigir dos ovos, os precursores da pequena burguesia. Só os mais afortunados - uma minoria, diga-se a bem da verdade - chegariam mais tarde a trabalhar como cobradores de impostos e banqueiros. Ocupações que, como se verá adiante, também seriam sua ruína.



UM TEMPLO HISTÓRICO


A bela Sinagoga del Tránsito foi transformada em igreja cristã no século 15. Só nos anos 1970 teve restituída a sua religião original


Um dos redutos onde o património sefardita ainda se conserva notável é Toledo, a 70 quilómetros de Madrid (e a meia hora de distância pelo recém-inaugurado comboio AVE). Na razão directa dessa herança, a cidade acolhe um daqueles dois museus dedicados à memória de Sefarad. Embora reúna hoje só 12 mil moradores, Toledo foi de vital importância na Idade Média. Aliás, manteve-se, na era seguinte, como capital da Espanha até 1531, quando o déspota Felipe II transferiu o centro de decisões para Madrid. No auge da cidade medieval, 10% da população que vivia dentro das muralhas de Toledo era constituída por judeus, contingente calculado pelos historiadores em 350 famílias. A cidade contava então com 12 sinagogas, várias construídas no atraente estilo árabe mudéjar - pois os mouros eram, então, os manda-chuvas na arquitectura. Restam hoje dois desses templos judaicos. Ambos foram transformados em igrejas cristãs, ainda no século 15.

A sinagoga mais antiga de Toledo, erguida três séculos antes disso, é a Igreja de Santa Maria Blanca, que, como informa o nome, permanece administrando ritos católicos, embora sua decoração revele signos hebraicos. Há duzentos anos atrás, a Sinagoga del Trânsito foi restituída à religião original somente nos anos 1970. Muitos de seus visitantes ficam pasmos ao notar, no teto e nas paredes, escritos religiosos com grafia tanto em hebraico (salmos, mais amiúde) como também em árabe (saudações do Corão). Singular nesse sentido, também, é a estrela-de-david que o mestre-de-obra judeu Bertrand de La Borda esculpiu no claustro da igreja católica de Seu Vella, na cidade de Lérida (ou Lleida, em catalão), em meados do século 14.


Lembranças arquitectónicas como essas serviram para forjar um mito divulgado com frequência por apressados historiadores de várias etnias: aquele, segundo o qual, a Idade Média na Península Ibérica teria sido um luminoso - e inédito - período em que os seguidores das três maiores religiões monoteístas conviveram, sem atritos, em absoluta e sacrossanta paz.

NA JUDIARIA MEDIEVAL


GUARDA
 
UMA JUDIARIA MEDIEVAL
 


     Olha a Judiaria com as ruas empedradas, estreitas, e as casas de granito que guardam memórias e histórias que só elas sabem…Abrigam crenças e mesteres, costumes, vidas que atraem curiosidades porque marcadas pela Diferença.
 
     Em cidade tão fria, de invernias longas, os judeus, arruados juntos, ali trabalham, vivem os seus amores, têm filhos, seguem a Lei de Moisés, celebrando o calendário litúrgico, sagrando o Tempo. (…) Na Sinagoga praticavam a sua religião; nas ruas soavam mil cânticos em língua sagrada.





Tempo de tolerância, não eram obrigados a abraçar o cristianismo. D. João I manda mesmo publicar a bula do papa Bonifácio IX (1389-1404) que, entre outras coisas, dispõe: “…nenhum cristão nom constranja os ditos Judeus per força ou contra sua vontade ou talante a receber o sacramento do Santo Bautismo.”


A HISTÓRIA DE AMOR DE INÊS, A FILHA DO BARBADÃO, E O MESTRE DE AVIZ

        
         E não é na Guarda que é vivida a história de amor de Inês, a filha do Barbadão, e o Mestre de Aviz? A falta de documentação desenhou para o acontecimento contornos que se desejam e que o imaginário da cidade vai (re) criando e guardando ciosamente.

 
Carlos Oliveira conta-a assim:

 

Muitos anos antes do édito de Fernando V que, como disse, atirou para Portugal com milhares de famílias de judeus, já no nosso país se encontravam centenas delas, apesar dos sacrifícios, das sujeições e dos vexames a que, como nos outros países em que eram toleradas as obrigavam, havendo algumas na Guarda. Vai até à Idade Média a época de mais relativo bem-estar para essa gente, tanto em Itália como entre nós; e a prova é que, com quanto fosse tratada com desprezo, tendo de usar fatos de certa cor, de residir em determinados bairros, de se humilhar servilmente ante os cristãos, de sofrer apupos e extorsões de toda a ordem, adoradores de Jeová, inimigos da divindade de Cristo.
 
Foi então, quando Henrique II de Castela coagiu numerosas famílias de judeus a saírem daquele reino, expulsando-as pela primeira vez que vieram a refugiar-se nesta cidade, como muitos nobiliários afirmam, um sapateiro de nome Mem ou Mendo, o qual se estabeleceu aqui, convertendo-se em seguida à religião cristã. Em 1360 nasce-lhe uma filha, a célebre Inês, cujos dotes de beleza ninguém contesta, e o Mestre de Aviz, depois D. João I, teve amores com ela, resultando destas ligações de íntimo afecto um varão que se chamou D. Afonso e uma menina que teve o nome de Beatriz.
 
     Esta casou com o conde de Arundel e dela procedem muitos membros da alta aristocracia da Inglaterra; e D. Afonso veio a casar com D. Beatriz, filha do condestável D. Nuno Álvares Pereira e sua única herdeira e foi o 1º duque de Bragança e o 9º conde de Barcelos.

Estes factos têm contestadores, embora algo nebulosos, diga-se de passagem; todavia, existe na Biblioteca Real d’Ajuda, segundo afirma Pinho Leal, um manuscrito que é atribuído por autores circunspectos a Damião de Góis, os quais, sobretudo por esse facto, consideram de todo o ponto verdadeiras as informações nele dadas, e que comprovam a história do sapateiro judeu, deixando ver que ela não é uma lenda.



Mais uma preciosidade enviada por
Sónia Craveiro,
à qual desde já deixo o meu sincero agradecimento.



Fonte:
in GUARDA HISTÓRIA E CULTURA JUDAICA MUSEU, Edição Comemorativa do VIII Centenário da Cidade da Guarda

Conto do rabino Nachman de Bratslav




“O rei astuto e os dois pintores”




      Numa terra distante, há muitos anos, um rei mandou construir o mais belo palácio de que havia memória. Quando ficou pronto, o rei quis decorar as paredes dos salões com pinturas das paisagens do seu reino. Havia naquele tempo e naquelas paragens dois pintores famosos muito apreciados pelo seu talento. Sem saber como escolher entre os dois, o rei chamou-os a ambos e desafiou-os a pintar cada um, uma parede de um dos imensos corredores do palácio. Entre eles o rei mandou colocar uma pesada cortina, que os impedia de ver o trabalho do outro.
 

     Aos dois disse o rei: “Têm três meses para pintar uma paisagem na parede. Nessa altura escolherei a pintura que mais gostar; o seu autor será convidado para decorar o resto das paredes do palácio e receberá uma sacola cheia de ouro e joias.” Um dos artistas, talentoso e trabalhador, tinha tudo preparado e começou de imediato a pintar. Praticamente não dormia e pouco comia dos manjares que os criados do rei lhe traziam. A pintura ocupava todos os seus pensamentos e gestos. O outro era bastante preguiçoso. Todos os dias acordava tarde e passava o resto do dia refastelado, bebendo dos melhores vinhos das adegas do rei e comendo o que de melhor lhe serviam. Tudo sem levantar o pincel uma única vez. Quando ouvia o colega trabalhar, ria desabridamente: “Que tolo, está no palácio e nem sabe gozar o luxo”, dizia ele entredentes.
 
     Os dias e meses foram passando. Um pintava dia e noite. O outro nada fazia. Até que faltaram apenas três dias para que terminasse o prazo dado pelo rei e o pintor preguiçoso acordou a meio da noite encharcado em suor: “Não fiz trabalho nenhum… o rei vai-me castigar com toda a certeza.” Aflito, o pintor não comeu nem dormiu. Dois dias passaram sem que ele conseguisse pensar num plano. Até que, finalmente, na véspera da chegada do rei, teve uma ideia. Pegou numa lata de óleo negro e pintou a parede inteira até que esta ficou brilhante como um espelho.
 

Na manhã seguinte o rei, acompanhado por membros da corte, veio inspecionar o trabalho dos dois pintores. Virando-se para a primeira metade do corredor, o rei ficou maravilhado com o trabalho do pintor esforçado. Em cores vibrantes, o artista retratara fielmente a paisagem que envolvia o palácio. “Nunca vi nada tão perfeito. Aqueles pássaros, que beleza, quase que os oiço chilrear. E as flores… só lhes falta o aroma”, disse o rei, maravilhado. Depois de alguns minutos passados na contemplação da pintura, o rei ordenou que fosse retirada a cortina, para que pudesse ver o que fizera o outro pintor. Para espanto de todos, a segunda parede era exatamente igual à primeira. Uma cópia perfeita, com todos os traços e pinceladas. Ali estavam as mesmas árvores, os mesmos pássaros chilreantes e os mesmos canteiros floridos. “Como é isto possível?”, interrogavam-se entre si os membros da corte. Mas o rei não se deixara enganar com a mesma facilidade. Sem pensar duas vezes, o rei pegou na prometida sacola de ouro e joias e colocou-a junto à parede verdadeiramente pintada. Outra sacola idêntica apareceu de pronto no outro lado, fazendo com que todos percebessem que se tratava de um simples reflexo. Então o rei declarou solenemente: “Cada um de vós receberá o pagamento que merece. Vá, aproximem-se das vossas obras e que cada um recolha a recompensa posta ao lado da respetiva pintura.”

 
Pequeno conto do rabino Nachman de Bratslav, Ucrânia, (1772-1810), publicado no livro Kokhavey Or (Estrelas de Luz), editado em Jerusalém, em 1896.
 
 


Com os agradecimentos muito especiais à minha amiga
Sónia Craveiro
que me enviou este artigo.

 
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